
À primeira vista, o Abrigo Desembargador Olívio Câmara (ADOC), no bairro Antônio Bezerra, pode parecer um lugar triste e abandonado. Sem placa de identificação na entrada, a casa acolhe 59 crianças e adolescentes com deficiência mental e busca, por meio de atividades educativas, atenção e carinho, melhorar a vida dessas pessoas. Assim como a personagem Clara, portadora de Síndrome de Down, na novela global Páginas da Vida, que foi adotada pela personagem Helena, interpretada por Regina Duarte, em geral, as crianças que estão ao ADOC foram abandonadas por suas famílias. A diferença é que até hoje nunca foram adotadas.
A casa funciona desde 1985. De acordo com a diretora do abrigo, Joana Darc Ferreira da Silva, até hoje nenhuma criança que passou por lá foi encaminhada para uma nova família. "Dificilmente vai haver uma adoção, pois ninguém escolhe um filho com alguma dificuldade. E a deficiência mental é mais complicada porque a criança pode evoluir, mas vai ser sempre dependente. Mas não é impossível, porque eles nos conquistam a cada dia". Mesmo assim, todos estão registrados no Juizado da Infância e da Juventude e disponíveis para serem adotados. "Temos toda uma relação de afeto com eles. Mesmo sendo uma casa simples, o que queremos é que eles tenham uma melhor qualidade de vida".
Geralmente, as crianças que chegam ao abrigo são entregues pela família ou encontrados na rua. Segundo a diretora da instituição, a grande maioria vem de famílias que vivem abaixo da linha da pobreza e, por isso, o abrigo acaba sendo melhor para eles, pois recebem acompanhamento médico e podem ser mais bem cuidados. Conforme dados da Adoc, só 1% dos que entram no abrigo voltam para suas famílias e, dos 59 que hoje moram na casa, somente 15 têm contato com parentes.
Com iniciativas como coral, dança, teatro, esportes e oficinas de cerâmica e bijuteria, o ADOC tenta oferecer melhor qualidade de vida para as crianças. "É uma casa dinâmica, acreditamos nas possibilidades deles. Tentamos investir para que convivam com outras pessoas, para que interajam normalmente com a sociedade", explica a psicóloga Josi Coelho.
As crianças e os adolescentes visitam o zoológico, vão às universidades e saem para comer fora, mantendo uma vida social com menos exclusão possível. "Eles têm noção de que não têm família. Uns aceitam e outros sonham em ter um pai e uma mãe. Mas conversamos e não alimentamos expectativas", ressalta a diretora. Para suprir a ausência da família, muitos tratam os instrutores e colegas de quarto como seus próprios parentes. Um exemplo é um adolescente que mora lá, que comemorou o aniversário de 18 anos com todos os moradores do abrigo e pagou do próprio bolso, por meio de uma pensão que recebe do irmão, pizzas para os amigos.
Ele conta que o que mais gosta do abrigo é do convívio com os companheiros. "Também adoro ciscar o campo, porque gosto de ver tudo verdinho. Fica lindo, da maneira que eu gosto para jogar bola". Integrante do coral do ADOC, ele é fã da dupla Zezé di Camargo e Luciano e do cantor Leonardo. Ele não perde a oportunidade de mostrar seus talentos e canta um pouquinho de sua música preferida com um grande sorriso nos lábios e boa afinação na voz. "Não vou deixar de ser um sonhador, pois sei, vou encontrar no fundo dos meus sonhos, o meu grande amor". Pouco depois ele confessa o seu grande sonho: "O que eu queria que Deus mandasse pra mim, mas não posso ter mais, é um pai e uma mãe". Os pais dele morreram de leucemia.
SERVIÇO
Para ajudar o ADOC
Doações: material reciclável, calçados, roupas, guloseimas, entre outros.
Travessa Santa Rita, 100 - Antônio Bezerra
Telefone: (85) 3101.5481/ 3235.1613