APAIXONAR-SE
Apaixonar-se é um dos momentos mais estranhos da vida de uma pessoa, disso não há dúvidas, e é um momento de grande incerteza, de desejos irracionais e de sensações muitas vezes inexplicáveis; tudo nos lembra a pessoa amada, e de repente todas as canções de amor falam de você, ou melhor, de "você". Não é por acaso que foi cunhada a expressão "Sinto um frio na barriga", que, embora não seja bonita, dá uma ideia da excitação sentida.
Comecemos por um fato: a maioria dos poemas que você estudou ou irá estudar terão como tema o amor, e muitas vezes o amor entre dois jovens. Comecemos com uma cena de um filme: em Big Fish, filme de Tim Burton, o já velho protagonista relembra quando conheceu sua futura esposa e imediatamente se apaixonou por ela: ele descreve como o tempo parecia ter parado para ele. E é a mesma imagem que encontramos num extraordinário poeta do amor, Guido Cavalcanti, no poema* Chi è questo che ven, ch'ogn'o la mira. *Neste poema o ar treme de luz enquanto a mulher amada passa e o tempo se encanta num grande silêncio trêmulo.
Tenho certeza que ao ver a pessoa por quem você sente algo especial, você tem sensações verdadeiramente inexplicáveis: parece que o tempo realmente flui de uma maneira diferente. No mesmo poema existe outro conceito: a idealização da figura amada. Muitas vezes, de facto, apaixonamo-nos por uma figura que é mais do que a própria pessoa e isso muitas vezes acontece quando nos encontramos numa situação de distância; isto é, quando essa pessoa não está conosco. Fantasiamos, enfim, e essa pessoa passa a acompanhar nossa solidão e nossa criatividade.
Naturalmente, para os jovens, o primeiro amor é uma experiência decisiva que nunca é esquecida, e certamente não digo isto para dar crédito a um provérbio. É uma novidade absoluta e é vivida com muito entusiasmo e ao mesmo tempo com muito medo. Este entusiasmo também pode tornar-se dramático, se mal vivido: afinal, a história de Romeu e Julieta é um exemplo claro disso. Há muitos aspectos envolvidos, longe de ser apenas um aspecto ideal: por exemplo pensar no corpo, na exterioridade, factores considerados muito importantes.
Embora você possa se apaixonar por qualquer pessoa, apaixonar-se te leva a mudar a forma de se vestir (com mais atenção, como os pássaros que têm plumagem mais bonita), você tenta entrar em forma; em suma, tentamos atrair o outro. Porque estamos prontos para usar nosso corpo como ferramenta de comunicação de outro alfabeto: o do amor erótico. A descoberta é intrigante e você quer experimentá-la, cheio de curiosidade e entusiasmo, mas também com muitas inseguranças que o melhor é enfrentar com calma e sempre sorrindo.
E depois há todo o universo interno, a nossa identidade em jogo. O medo de não ser querido, de ser rejeitado, toma conta: tem um poema do Cecco Angiolieri, aliás, que é simplesmente maravilhoso. Neste poema o poeta reclama que sua amada não sente nada por ele, nem mesmo ódio. Nada. A sensação de derrota que se pode sentir pela rejeição sofrida é um sofrimento muito doloroso, que não desaparece imediatamente e faz parte de um caminho mais amplo que leva à autoconsciência e à capacidade de doar-se verdadeiramente.
Mencionei-vos alguns poetas, mas as poetisas também são extraordinárias neste tema: por exemplo, Anna Akhmatova, uma poetisa russa, fala sobre um amor traído com uma fúria comovente. Em suma, não devemos brincar com os sentimentos, mesmo que seja difícil estar correto no amor. Por exemplo, neste tema você pode tentar descrever alguns encontros especiais, aqueles para os quais mencionamos a palavra destino, um pouco como nas histórias que muitas vezes são contadas. «Estava passando por lá por acaso e...»
Outras correntes psicológicas chamam a escolha do objeto de desejo de projeção. Segundo a psicologia junguiana, a projeção surge de uma fonte arquetípica que faz parte da essência íntima de cada alma. Para os junguianos, o mapa do amor possui traços altamente individualizados, pois o que provoca o enamoramento e a sensação de que se trata de um chamado do destino é uma imagem complexa que carregamos em nossos corações. Quanto mais obsessiva e irresistível a imagem, mais nos apaixonamos perdidamente, o que intensifica a crença de que é o destino quem o quer.











